“Socorro! …meu vizinho tem um Karaokê!”

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Feriado!
Sol, bacalhau com batatas!  Os aparelhos pra manter a forma e nada mais pra fazer, talvez alguns trabalhos com luz e sombra para a outra semana.  Ah, me esqueci de falar do principal – a música.  Muita música por aqui! Logo pela manhã, quando o bacalhau estava no fogo, começou a cantoria.  …cantoria do meu vizinho – ele e seu karaokê!  Nunca temos solidão nesta vizinhança, aos Sábados, domingos e nos feriados também.  Sempre podemos contar com sua alegria e espontaneidade.  É impressionante seu fôlego, pois não desliga o aparelho até à tardezinha.  Achamos que ele não almoça, mas também pra quê?  A melodia parece alimentar seu espírito.  O rítimo não muda! De uma música para a outra é sempre um forró.  Ah mas tem a voz dele, uma voz alta, sem timidez!  Por vezes vezes desafina, entretanto não se abate e continua firme no seu propósito.  No começo do ano, o Playback do karaokê e sua voz pareceram-lhe pouco, então comprou um violão eletrônico!  Agora somos agraciados com seu Playback, sua voz e seu altíssimo violão eletrônico.
Esperem!…
Parece que ele deu uma paradinha – isto é incomum, talvez precisou ir ao banheiro.  No ano passado, quando comprou o tal aparelho, cantava muito mais alto.  Algumas pessoas por aqui se incomodaram, mas como dizer isso a ele?  É um tipo sorridente, educado, gentil – um indivíduo “bonzinho”!  Excelente vizinho!
…alguém achou o meio certo e falou.  Sei que o som abaixou pela metade, mas a outra metade continua fiel.  Tem umas três semanas, que num dia comum de trabalho e estudo, escutei o mesmo som.  No entanto não era voz de homem e sim de mulher.  Imaginei que outro vizinho tivesse adquirido um aparelho para cantar também.  Foi então que ouvi uma criança reclamando e chorando, quando a mãe gritou:
_ Cala a boca minino, me dexa cantá! – ah, entendi!  Era a mulher do vizinho que tirara o dia para usar o karaokê.  A voz alta como a do marido, destemida, tentando acertar!
Agora tínhamos dois cantores, pensei!…
…mas não, foi somente naquele dia!  Ela não cantou mais.
Estou ouvindo novamente sua voz – retornou do que estava fazendo.  Deve ter almoçado presumo, pois sua voz está cheia de energia,  a todo vapor!  Creio que até a igreja do alto da colina, atrás de casa, pode ouví-lo.
Bem, vou aproveitar este momento, para desenhar algumas coisas com sombra.  …mas ainda estou pensando, será que sou a única pessoa a ter um vizinho cantor?  Certamente, outras pessoas por aí tem por perto seus vizinhos cantores.  No Brás, no Ipiranga, no bairro do Limão, em Moema?
…mas vamos aos desenhos!  … enquanto a trilha de fundo corre solta.

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Sweet granny!

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O motorista parou o ônibus para que eu descesse.  Olhando pela janela do ônibus, vi uma senhora que virava a esquina, a uns cinqüenta metros de distância de onde eu estava.  Diante da porta, em pé sobre o elevador que descia, ainda olhando a senhora, percebi que ela parou prestando atenção no barulho. Achei  que ela esperava alguém, mas logo entendi que “a coisa interessante” era a minha descida .  Desci com a ajuda do cobrador, atravessei a rua em direção à esquina onde estava a senhorinha, porque era por ali que eu precisava  ir.

Ela parada, continuava a me olhar fixamente.
Eu estava com certa pressa,  pois faria um contrato numa escola nova e tinha compromisso com horário.  A senhorinha com voz dócil,  começou a falar comigo sobre a sobrinha na cadeira de rodas – coitada!  Estava doente e ela precisava de sua ajuda.  Contou-me que lavava sua louça e limpava a casa.  Sobre os serviços que prestava à sobrinha. Fiquei ali, tentando ser gentil, mas também tentando sair logo, eu precisava estar na escola naquele momento – isso era muito importante!  Fui conversando e andando, ou “rodando”?! Finalmente fiquei diante do prédio da escola.  Despedi-me desejando-lhe tudo de bom e saúde à sobrinha.  Ela me deu muitos conselhos e quase me beijou, até que despediu-se.  Cheguei a tempo, mas em cima do horário marcado!
…e foi assim, a senhorinha de hoje!

Observação de Paisagem Sonora por uma cadeirante.

“Airbus, Boeings, Sabiás e até um galo – juro!”

(Três momentos no meu jardim!)

 

No último final de semana, coloquei o relógio para despertar 5:00h, mas acordei um pouco antes, exatamente 4h:30min. Enquanto eu me vestia e preparava um chocolate quente, para observar confortavelmente a paisagem sonora do meu quintal, gritos de uma pessoa quebravam o silêncio. Vinham da rua e juntando-se a outras vozes, percebi que eram jovens que voltavam de uma balada, talvez!?… Às 4h:45min. estava eu com minha xícara, pontualmente sentada no jardim! Começaram a descer os aviões em Cumbica – Guarulhos. Eles fazem uma rota, que passa sobre o meu bairro, alguns fazem uma curva para o sul e outros seguem direto. De minuto em minuto desce um, sendo mais barulhentos, os Boeings. Os Airbus da Tam são menos barulhentos e acendem as luzes bem antes de pousar.
Parece incrível, mas quando o relógio marcava 5:00h, um Sabiá começou a cantar solitário, acho que mora em algum ninho por perto. Todos os dias eu o escuto – será que é o mesmo Sabiá?
Enquanto os aviões dão uma trégua, ouço o arranque do primeiro ônibus, que vai para o Metrô Carandirú. O ponto fica na Avenida, paralela a minha rua, mas nesse silêncio todo dá para ouvir bem.
…e longe, não sei onde nem em que casa, ouço um galo.
Um galo em Sampa City!
De tempo em tempo, um automóvel marca sua presença na avenida, pois é ainda muito cedo no bairro. Perto das 6:00h, os sinos de uma igreja católica tocam bem longe. Muitos outros pássaros começam a cantar também, mas os cachorros da vizinhança continuam dormindo. Uma vizinha da frente, limpa a calçada com vassoura e balde. Dá para ouví-la esfregar e jogar a água – todos os dias faz igual!
Um vizinho ou outro liga o motor do carro para sair, ou levar o filho à escola.
Como é dia de coleta do lixo, um catador de papel vasculha um dos sacos de lixo da rua, dando início à sinfonia da cachorrada! Esse coral canino canta até o homem se afastar, mais de meia hora.
Ás 6h:45min., mães e crianças passam falando alto a caminho da escola, que fica na esquina da minha casa. Completando essa paisagem sonora da manhã no meu quintal, ouço uma buzina discreta. É a bicicleta do rapaz que vende pães. Mais carros e pássaros são ouvidos, mas nada incomodando, pois moro numa rua tranquila.
…voltando ao jadim às 12:30min. Agora, dois sons se misturam: os CDs dos “Embalos de Sábado à Noite” de um vizinho e a guitarra elétrica de outro. Preciso mencionar, que o vizinho da guitarra elétrica, também canta. Ele faz um Karaôque ao meio-dia! O carro de coleta de lixo passa, fazendo todos os cachorros se manifestarem. Alguns ônibus e caminhões são notados. Os amigos das minhas filhas começam a chegar, tocam a campainha e gritam pelos nomes delas. É companhia para o caminho da escola.
Ás 13:00h, tudo fica mais calmo.
…acho que muita gente almoça, volta ao trabalho ou escola, as coisas tranquilizam-se!
No jardim às 19:00h, ouço crianças voltando da escola, o barulho de suas vozes parece maior. Pessoas chegam de carro do serviço.
Todos os cachorros do planeta parecem latir!
Alguma buzina na avenida, um ou outro avião Airbus passam sobre a minha casa.
Às 19h:30min., parece que tudo se acalma, mas um barulho é constante na rua: a buzina das motos dos entregadores de Pizzas. Essas buzininhas são ouvidas até à meia-noite!
…mas a paisagem sonora se modifica!…
Dependendo do dia, os barulhos podem ser diferentes, normalmente são assim como os descrevi: quase sempre agradáveis, desagradáveis quando as músicas dos vizinhos passam dos limites. Apenas!

Dia de sol, num dia de chuva!

Quando eu e minha filha Amanda saímos do Metrô em direção ao ponto, logo chegou o nosso ônibus. Mas como não haviam pessoas no ponto, o motorista preparou-se para ligar o motor. Eu ainda na saída do Metrô, pedi a Amanda que corresse e dissesse que havia uma cadeirante. Ele colocou a cabeça para fora do veículo e me disse:
– aguarde só uns minutinhos que vem um com elevador, logo atrás.
Bom, o ônibus estava vazio e ele precisaria carregar minha cadeira junto com outro, achei que não faria mal esperar outro. Sabe a cabine da empresa de ônibus, que fica sempre ao lado da saída do Metrô? Veio de lá de dentro um funcionário, caminhando rápido em minha direção, no mesmo momento o ônibus preparava-se para sair. O funcionário me olhou indignado e dissse:
– Vai nesse! Está chovendo, por que voce não vai nesse – expliquei-lhe o que o motorista me sugeriu. O funcionário olhava para dentro do ônibus com cara de indignado, voltou correndo para a cabine e saiu junto com outro. Antes de chegarem perto, o ônibus saiu. Notei que comentaram algo e os dois, com cara nada amigável. Então o homem que veio com o funcionário me disse:
– É rapidinho, não vai demorar e chegará outro ônibus. Voce pode esperar sob a marquise do Metrô, para não se molhar se começar a chuva novamente. Notei que eles não se agradaram com a atitude do companheiro, que arrancou e não me levou.
Foram extremamente gentís! Como os funcionários do Metrô – estes estão muito bem treinados!
Senti que realmente as coisas estão mudando – mesmo!
O próximo ônibus chegou, o motorista extremamente gentil, subiu minha cadeira pelo elevador. Sorridente, perguntou-me antecipadamente onde eu desceria ( eles fazem isso ultimamente- sempre foi assim?), perguntou-me se eu estava confortável e saiu para dar a partida.
Pra mim foi um dia de sol, mesmo que nublado e chovendo.
Estou gostando muito de sair de casa, claro que existem muitos problemas ainda por aí, para nós os deficientes. As calçadas por exemplo, a acessibilidade às lojas, o … a … há muito pelo que lutar ainda!

…tenho esta história:

Como eu disse antes, estou sobrecarregada de atividades na faculdade. Precisava de uma história que tivesse um bom argumento para um filme…

…tenho esta história:

Toda à tarde quando eu voltava da escola, lá estava ele, o mendigo. Sentado, escrevendo algo num pedaço de papel, rodeado por uns seis cachorros. Todos os cães deitados aos seus pés, quietinhos, como se respeitassem aquele momento do seu dono. A praça por onde eu passava no caminho da escola, parecia ser o pano de fundo ideal para aquele quadro: um mendigo vestido de terno preto com camisa branca – encardida – um chapéu Panamá velho na cabeça e uns três livros com capas antigas debaixo do braço. Todos os dias, menos nos de chuva, lá estava ele a escrever. Olhava para cima, como quem pensasse nas frases, depois voltava ao papel e acrescentava-lhe algo. Num certo dia, passei diante dele comendo bolachas, nossos olhares se cruzaram e então lhe ofereci algumas. Para minha surpresa ele aceitou. Parei diante dele e estendi-lhe o pacote, ele apanhou uma bolacha. Sem ter o que dizer, perguntei que livros eram aqueles. Respondeu-me então, que eram livros de filosofia e português e um dicionário. Contou-me que era professor de português, mas estava afastado do ensino há muitos anos. Eu não queria entrar em detalhes, mas não me contive em perguntar o porquê. Foi aí que ele contou-me que perdera a família num acidente de automóvel, esposa e três filhos. Entrou em depressão, não sentindo vontade de mais nada na vida. Perguntei-lhe o que escrevia naqueles papéis todos os dias. Ele retirou do bolso um deles e começou a ler para mim. Eram poesias! Belas combinações de palavras formando frases. Pelo português corretíssimo, não pude duvidar de sua história. Contou-me também, alguns episódios de quando era professor. Fiquei perplexa, não conseguia perguntar mais nada, despedi-me e voltei para casa. Fiquei dias pensando em como alguém com tanto conhecimento, pode se desligar do mundo assim? Desistir de tudo?

Acredito neste, como um bom argumento para um filme!

…saudades de subir escadas!

…cenas que se repetiram por muitos domingos da minha infância!

“Numa certa época dos anos 70, aos domingos, eu e meu pai passeávamos pela cidade deserta. No caminho, uma passadinha num cliente dele, dono de uma pastelaria. Meu pai pedia um caldo de cana pra mim e outro pra ele; me perguntava que recheio de pastel eu queria – eu sempre dizia palmito, meu favorito!
No caminho de volta, pelo centro velho, na Ladeira da Memória eu não queria subir, meu pai me puxava pela mão e dizia:
_São apenas alguns degraus filha, vem, a gente sobe rapidinho. Vem, vem, vem…
E eu resmungava:
_Ah pai, tô cansada, não agüento, tá calor!…
Ele conversava comigo, conversava, conversava… quando eu percebia, já estava no alto da escadaria.
Meu pai e o centro velho de São Paulo aos domingos – uma combinação do passado que ficou registrada em minhas lembranças.

São as minhas memórias da Ladeira da Memória!…”

(No começo do século XIX, no centro da cidade de São Paulo, o Largo da Memória, localizado no início da rua Palha – atual rua 7 de Abril, era ponto de reunião dos moradores da província e caminho obrigatório dos viajantes que paravam para encher os seus cantis na bica ali existente.)

Foto: Ladeira da Memória.
São Paulo por KASchramm e tchello
Aqui!

Eu entendo voce!

(…isso foi no começo da travessia.)

Era o meu dia de consulta no neurologista, o hospital imenso – atendimento pelo SUS. Primeiro passamos por uma sala de tamanho normal (porque não achei-a diferente…). Aguardei mais ou menos meia hora e meu nome foi chamado para outra sala maior. Ao entrar me espantei com o tamanho da sala, quantas pessoas caberíam ali? 150, 200? As pessoas estavam sentadas numa metade e a parte para o fundo vazia. Fiquei em minha cadeira na frente, ao lado da mesa que atendia. Gostei daquela posição, eu poderia ver todos os rostos, acompanhar a movimentação. Pacientes e acompanhantes entravam e eu os observava, até que num dado momento aquilo começou a me incomodar. A sala tornou-se repleta de gente, parecendo um hospital de campanha! Éram muitas pessoas deficientes – e todas no mesmo lugar! A maioria doente; a maioria crianças! Comecei a me sentir sufocada. Naquele momento, a cena pra mim tornou-se insuportável. Veio aquele sentimento de comigo tudo bem, sou adulta e posso aguentar, mas eles são tão pequenos! Abaixei a cabeça e apoiei o cotovelo no braço da cadeira, coloquei a mão fechada num lado do rosto, simulando que estaria descansando. Então apertei os olhos e chorei. Chorei quieta e discretamente, sem emitir nenhum som, abafei ao máximo para não ser notada. Meu coração doía. Pensei comigo, que aquelas pessoas estavam no meu planeta, mas eu nunca notara! Naquele dia, saí dali profundamente triste pelas crianças e adolescentes que vi. Imaginando quantos haveríam, que não estavam lá! A minha ficha caíra desde então! Tinhamos todos muitas coisas em comum!
…porém coisas tremendamente incomuns!